Crítica | Antártica

“Antártida” se perde entre tantas pautas e não consegue sustentar a própria história

Na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a pesquisadora Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de uma violência na primeira noite de isolamento da equipe. Sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos, incluindo o comandante Barros (Antonio Calloni) e o capitão Vicente (Lázaro Ramos). A subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) assume a investigação, enquanto as mulheres da estação, entre elas Marina (Leandra Leal) e Rose (Mariana Sena), precisam enfrentar o medo, o silêncio e a violência em um ambiente predominantemente masculino. Cercados pelo gelo e por condições extremas, os personagens descobrem que o perigo pode estar muito mais perto do que imaginavam.

Antártida é o novo thriller psicológico dos Estúdios Globo, dirigido por Bruno Safadi e escrito por Claudia Jouvin. A premissa estabelece um cenário interessante para um thriller claustrofóbico. Isolados em uma estação de pesquisas e sem possibilidade de deixar o local, os personagens estão presos em um espaço onde qualquer um pode ser o responsável pelo crime. O problema é que o longa tenta abraçar questões demais em pouco mais de 93 minutos e acaba não conseguindo desenvolver satisfatoriamente aquilo que apresenta.

A violência contra a mulher, a liderança feminina em um ambiente predominantemente masculino e o abuso de poder estão entre os principais pontos da narrativa. São questões relevantes, mas o roteiro frequentemente passa por elas de maneira superficial. Em determinados momentos, inclusive, o filme parece contradizer os próprios discursos que constrói.

Isso fica ainda mais evidente na construção dos personagens. O longa reúne Andrea Beltrão, Leandra Leal, Lázaro Ramos, Marina Ruy Barbosa e outros nomes de peso, mas tenta dar conta de histórias, conflitos e relações demais. Alguns personagens parecem ter tramas próprias, mas seus arcos são resolvidos de forma rápida, sem tempo para desenvolver melhor suas motivações. O elenco tenta entregar o melhor de si dentro do material limitado, mas a pesquisadora (Marina Ruy Barbosa) está fora do tom. Inês é construída de maneira excessivamente caricata e pouco convincente, e as perucas usadas pela personagem destoam da proposta e passam uma sensação de descuido na composição visual.

E não é necessário que uma obra apresente respostas para os problemas que coloca em cena. Um filme pode terminar deixando perguntas e provocar uma reflexão no espectador. O problema de Antártida é que muitas dessas questões são apresentadas sem tempo suficiente para ganhar complexidade. O resultado é uma narrativa que problematiza situações importantes, mas cuja própria abordagem acaba se tornando problemática.

Já no mistério sobre quem cometeu o crime, a trama encontra seu fio condutor. A estrutura de investigação coloca os homens da estação sob suspeita e tenta conduzir o espectador até a descoberta do responsável. Porém, a rapidez das resoluções prejudica a tensão e faz com que algumas situações pareçam pouco desenvolvidas.

Tecnicamente, o longa chama atenção pelo uso da produção virtual e da tecnologia Unreal para recriar a Antártida. A escolha é ambiciosa e representa uma experiência importante para a produção audiovisual brasileira, mas, dentro da narrativa, o recurso acaba ficando em segundo plano.

A partir disso, existe uma vontade evidente de demonstrar tudo o que o filme está fazendo: discutir violência contra a mulher, apresentar mulheres em posições de liderança, construir um thriller psicológico e ainda utilizar tecnologia de ponta. Só que, nessa tentativa de performar tantas propostas ao mesmo tempo, Antártida acaba deixando de lado elementos básicos para que a história funcione.

Diante desse excesso, talvez esse excesso encontrasse mais espaço em uma série. Um formato mais longo permitiria desenvolver os personagens, aprofundar as relações e dar consequências maiores às diversas questões que o roteiro apresenta.

O roteiro ainda faz uma breve menção ao aquecimento global e ao El Niño, mas não se aprofunda nessas questões. Da mesma forma, os aspectos técnicos relacionados às patentes e à estrutura da estação são apresentados de forma superficial, como se o espectador já tivesse conhecimento prévio sobre seu funcionamento.

Como longa metragem, porém, Antártida acaba sendo uma produção incongruente. O problema está tanto na quantidade de assuntos que o filme tenta abordar quanto na falta de profundidade com que eles são apresentados. No fim, o longa reúne um elenco de peso e uma proposta visual ambiciosa, mas não consegue transformar esses elementos em um filme envolvente. O resultado é um thriller que não sustenta a própria proposta e termina sem causar o impacto que pretende.