Crítica | Digger

Tom Cruise entrega atuação marcante em sátira política que se perde nos excessos

O retorno do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, conhecido por Birdman (2014), vencedor do Oscar de Melhor Filme, chega às telas com uma proposta ambiciosa em Digger. Estrelado por Tom Cruise, o longa aposta em uma sátira política e ecológica de tom apocalíptico, retratando os limites entre poder, dinheiro e responsabilidade diante de uma possível catástrofe ambiental. Fora da imagem tradicional de herói de ação e galã, Cruise assume um personagem extravagante e desconfortável, em uma produção que busca provocar o público, mas nem sempre encontra o equilíbrio necessário para sustentar suas próprias ideias.

Na trama, Cruise interpreta Dinger Rockwell, um magnata norte-americano do setor petrolífero que é informado pelo diretor de segurança ambiental de sua empresa, o cientista doutor Ganesh (Riz Hamider), de que suas decisões empresariais podem provocar uma catástrofe ambiental sem precedentes. A partir dessa premissa, o filme articula questões sociais e políticas contemporâneas, colocando em cena figuras de poder, interesses econômicos e discursos sobre o futuro do planeta. 

Antes de seguir, vale um aviso: Digger apresenta uma reviravolta importante para a compreensão da história. Para preservar a experiência de quem ainda não assistiu ao longa, a análise a seguir aborda esse elemento a partir daqui. Quem prefere evitar spoilers pode encerrar a leitura neste ponto.

Atenção: spoilers a seguir

A principal surpresa de Digger está na maneira como Iñárritu transforma a narrativa ao revelar que os acontecimentos apresentados até então fazem parte de uma peça de teatro. A construção remete a Birdman, tanto pela relação com o universo teatral quanto pela maneira como o filme brinca com os limites entre representação e realidade.

A revelação surpreende, sobretudo porque os cenários são tão realistas que a encenação passa despercebida durante boa parte da projeção. É nos bastidores, nas transições entre as cenas e nas mudanças de cenário que essa estrutura começa a se tornar evidente.

O problema está no tom. Ao tentar satirizar o poder econômico, a política norte-americana e a crise ambiental, o filme recorre a personagens e situações tão caricatos que, em determinados momentos, a crítica perde força. Rockwell aparece cercado de bajuladores e preocupado com sua gata de 30 anos à beira da morte, enquanto o presidente (John Goodman), enfrenta um câncer anal e os representantes das Forças Armadas parecem dispostos a recorrer à violência a qualquer momento.

As situações grotescas e as piadas machistas e xenofóbicas também comprometem a experiência. A produção oscila entre a sátira escrachada e o drama apocalíptico, sem estabelecer uma linha de discurso consistente. Quando se leva a sério, encontra força. Quando exagera na caricatura, perde parte do impacto.

Tom Cruise, por sua vez, entrega uma das atuações mais marcantes de sua carreira. Submetido a uma transformação física, com horas de maquiagem e caracterização, o ator se afasta da imagem habitual de herói de ação para construir um personagem excêntrico, desconfortável e cheio de contradições.

Em um monólogo particularmente impactante, Cruise concentra boa parte das reflexões propostas pelo filme e demonstra uma capacidade dramática que pode colocá-lo na disputa por uma indicação ao Oscar. Riz Ahmed também merece atenção, enquanto o restante do elenco cumpre sua função.

Visualmente, a parceria com o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki resulta em composições de grande beleza plástica, que ajudam a sustentar a ilusão teatral e a complexidade dos cenários.

Imperfeito e confuso em suas ambições, Digger é, ainda assim, um filme corajoso. A sátira tem potencial para provocar debates sobre a ganância, a autoilusão humana e a incapacidade de reconhecer as consequências das próprias escolhas diante de um possível colapso.

No entanto, a falta de coesão tonal impede que essas questões alcancem toda a profundidade que poderiam ter. Saí da sessão dividida entre o impacto de algumas cenas, a força da atuação de Cruise e o excesso que atravessa boa parte da narrativa.

O longa não é para todos os públicos, e sua proposta tampouco parece buscar esse consenso. É uma experiência que provoca, incomoda e pode gerar discussões intensas, mas que teria muito a ganhar se confiasse mais em suas ideias e menos nos exageros.