Crítica: Marty Supreme

“Eu tenho um propósito. E se você pensa que isso é algum tipo de bênção, não é. Significa que tenho a obrigação de levar uma coisa muito específica adiante, e com essa obrigação vem o sacrifício.”

Marty Supreme é sobre a prepotência de um jovem de vinte e poucos anos e toda a sua imaturidade, egoísmo e ambição em ser o melhor na busca do sucesso, uma busca que levará ele em uma série de erros catástróficos destruindo todos em seu caminho.

Na trama vemos um recorte da vida de de Marty Mouser, um ardiloso apostador e jogador de tênis de mesa que se recusa a ser só mais um trabalhador de Nova York nos anos 50. Porque na cabeça dele, ele é muito superior ao resto das pessoas e e ele levará essa obsessão até o fim criando um efeito dominó de problemas.

É sobre essas pessoas que possuem grande facilidade em sair de problemas na sua vida, mas que continuam a se sabotar atitude após atitude por serem quem eles são na vida. Marty é um desses indivíduos.

O que dá vida ao longa estrelado porTimothée Chalamet e dirigido por Josh Safdie é sua sátira ácida da busca do sonho americano, um tema recorrente na filmografia de Safdie que antes fez projetos como Bom Comportamento e Jóias Brutas onde ambas histórias focavam em apostadores que buscavam vencer na vida do modo mais fácil possível com personagens tóxicos caminhando nas ruas de Nova York.

Em Marty Supreme, o diretor aplica essas ideias mas em um contexto muito mais irônico ao lidar com uma cinebiografia que explora os limites do drama e da comédia nos absurdos da vida de Marty e mostrando o que essa obsessão americana pode causar ao redor, pois estamos falando de uma cinebiografia que se recusa a jogar com as batidas desses filmes.

A produção mostra o pior de Marty em sua jornada para não ser um medíocre e suas ações provocam problemas que geram problemas ainda maiores explorando os crimes de Nova York, os indíviduos pitorescos dessa cidade e os inocentes que são pegos no furacão da vida desse personagem.

Mas o grande destaque é que mesmo sendo sobre uma pessoa branca com privilégios e levando ao máximos as ideologias dos EUA não é díficil torcer para sua vitória.

Afinal, a sua paixão é bem genuína e Chalamet entrega a usa maior atuação da carreira criando uma performance rica, explosiva e cheia de carisma com um personagem tão infantil nos seus atos, mas também tão cheio de vida e a direção de elenco sempre é capaz de impulsionar ainda mais Marty seja com Abel Ferrara, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Tyler Okonma ou Kevin O’Leary.

Todos esses demais personagens vemos muito pouco deles e sobre quem eles são de verdade, pois se trata do mundo na visão de Marty onde vê o mundo como o seu palco e o resto como figurantes de sua vida. E esse é um dos méritos do texto escrito por Ronald Bronstein e Josh Safdie que sabem lidar com esse diversos episódios da sua corrida contra o tempo em uma narrativa contínua mas também criam a experiência de viver como Marty e de sentir o que ele sente na vida.

Uma produção que parece simples, mas que tem um formato um tanto complexo e moderno na maneira de filmar lhe dando a atmosfera de um submundo de Nova York na textura de imagens e os diferentes cenários da cidade enquanto evoca atributos de outras décadas do cinema como anos 70 ou anos 80 seja pela selvageria ou pelas músicas que expressam emoções do filme.

E o som se torna um grande destaque através do uso da trilha de Daniel Lopatin para costurar as emoções e o ritmo juntamente da montagem que fazem dele um espetáculo sensorial que essencialmente se trata de respirar a ansiedade de Marty Mouser.

a produção usa desse teor eletrizante para explorar não só velocidade mas também os dramas cheio de frustrações, raiva e impulsividade. Porém, compreende que mesmo em em todos os erros do personagem se trata de um jovem que luta contra o tempo em busca de um sentimento de satisfação.

Existem muitas histórias no cinema sobre como os sonhos nos preenchem e como é bom lutar por seu sonhos e que tudo dará certo, mas Marty Supreme é sobre quando o sonho se torna uma obsessão e o quanto isso é perigoso e tóxico principalmente se for alimentado dentro de uma ideologia de “vencedores” dos EUA.

Marty Supreme sintetiza esses diverso temas e funciona devido à entrega de Timothée Chalamet ao papel indo da graciosidade para a arrogância, a motivação e sua imaturidade. O longa entende o momento que vivemos e traz um olhar mais ácido para a impulsividade juvenil e da busca por ser o melhor, mas logicamente não é para todos.

É uma produção eletrizante, desconfortável e cheia de negatividade na atmosfera e no personagem com uma conclusão deixada em aberto para interpretações. Tudo depende de como você enxerga o pensamento de ser um vencedor e se aqueles ao redor de Marty são vítimas ou medíocres.

Mas uma coisa é certa, às vezes é preciso parar de correr em algum momento e deixar o amadurecimento acontecer na vida.

Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta e autor na Cine Mundo, um cinéfilo fã de Spielberg e Guillermo del Toro, viciado em séries, leitor de quadrinhos/mangás e entusiasta de animações.