Crítica: O Drama

Quando ouvi falar de O Drama, com Robert Pattinson e Zendaya, minha curiosidade foi instantânea. Na época, quase não sabia nada sobre o filme, e isso só aumentou meu interesse. Logo depois, começaram a pipocar as primeiras notícias: O Drama seria uma história centrada em romance. E, convenhamos, em tempos em que filmes de romance andam meio sumidos das telonas, isso já me deixou super animada. Aí, quando vi que a A24 e a Diamond estavam por trás do projeto, minha expectativa subiu ainda mais. Então, não teve jeito: marquei meu calendário, fiz meu “save the date” e fiquei só na expectativa do grande dia. 

O caminho do Robert Pattinson é bem interessante quando a gente olha de perto. Depois de estourar mundialmente com a franquia The Twilight Saga (2008), ele resolveu apostar em projetos mais desafiadores, dirigidos por cineastas peculiares, como Robert Eggers e os irmãos Safdie. Fica claro que ele gosta de se aprofundar em personagens instáveis, muitas vezes inseridos em situações de intensa tensão psicológica.

No caso de Zendaya, o desenvolvimento artístico se dá por meio de uma ampliação progressiva de registros interpretativos. A transição de projetos vinculados à Disney Channel para obras de maior intensidade dramática evidencia a sua versatilidade. Em Euphoria, por exemplo, sua performance premiada impressiona pela precisão emocional e pelo domínio de cenas de alta carga dramática.

A sinopse oficial de The Drama conta que  às vésperas do casamento, um casal aparentemente perfeito, vivido por Zendaya e Robert Pattinson, tem sua relação abalada por uma revelação inesperada. O que deveria ser o momento mais feliz da vida deles se transforma em um jogo emocional intenso. O Drama desconstrói a ideia de romance ideal e expõe as fissuras que surgem quando intimidade e controle se confundem.

O filme começa mostrando a fase inicial do relacionamento: encanto, admiração e o encaixe das manias de cada um.

No entanto, durante um jantar com amigos, Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie) enfrentam uma revelação inesperada que muda completamente a dinâmica entre eles, provocando uma ruptura no equilíbrio que até então parecia estável. A partir desse momento, a narrativa se desenvolve a partir das reações ao redor desse acontecimento, mostrando como o evento afeta diretamente o relacionamento e como outras pessoas intervêm e reinterpretam a situação. Sem entrar em detalhes para não dar spoilers, percebe-se que esse episódio funciona como um gatilho, deslocando o foco da intimidade do casal para o julgamento externo e criando a tensão que conduz toda a história.

Esse deslocamento abre espaço para diferentes leituras. Há a reação dos amigos, que rapidamente assumem posições e constroem suas próprias versões dos fatos. Há também a resposta do personagem de Charlie (Pattinson), atravessada por inseguranças e pela dificuldade de lidar com algo que foge ao controle. E, principalmente, há a perspectiva da Emma (Zendaya), que precisa enfrentar não apenas a situação em si, mas o peso de ser reduzida a um episódio específico de sua vida. Existe uma insistência em culpabilizar que não abre espaço para escuta, muito menos para empatia.

Existe uma harmonia evidente entre o casal quando estão isolados, mas essa estabilidade se desfaz à medida que vozes externas passam a interferir. O filme observa com precisão como opiniões alheias, muitas vezes superficiais, têm o poder de corroer vínculos que, em essência, eram sólidos. Não se trata apenas do conflito em si, mas da maneira como ele é amplificado por quem está de fora.

Outro eixo importante do roteiro está na representação do casamento e de tudo o que o envolve. O filme percorre diferentes etapas desse processo, desde decisões aparentemente simples até questões mais estruturais. Entre escolhas, surgem decisões como a definição da fotografia, a escolha do buffet, a seleção das flores, a montagem da lista de convidados e a dança, criando um questionamento constante sobre o que, de fato, importa naquele momento. Em determinado ponto, a personagem de Zendaya expressa um desejo simples: não seguir as orientações da professora de dança e chega a questionar se todo aquele processo faz sentido.

Do ponto de vista formal, The Drama apresenta uma construção segura, com ritmo bem definido e escolhas narrativas que sustentam a progressão emocional da história. A química entre Robert Pattinson e Zendaya funciona de maneira convincente, superando qualquer expectativa inicial relacionada às imagens públicas dos dois atores. Há um trabalho evidente de construção da intimidade, que se traduz em interações naturais e em uma sensação constante de verdade.

Zendaya, em especial, entrega uma performance marcada por nuances, transitando entre vulnerabilidade, afeto e tensão sem recorrer a excessos. Sua personagem carrega camadas que vão sendo reveladas aos poucos, e a atriz sustenta essa complexidade com precisão, permitindo que o público compreenda suas contradições.

Robert Pattinson entrega um personagem extremamente afetuoso, atento e gentil, alguém que se coloca como parceiro de fato dentro da relação. Há um cuidado na forma como ele constrói esse homem presente, que escuta, que apoia e que tenta sustentar o vínculo mesmo diante das tensões. Ao redor deles, os personagens secundários também cumprem um papel importante na condução do conflito. A Rachel surge como figura de confronto adiciona uma camada de incômodo real, já o parceiro Mike traz um contraponto mais leve e carismático, equilibrando a dinâmica entre os coadjuvantes.

Há uma discussão muito clara sobre a dificuldade que as pessoas têm em aceitar mudanças. Mesmo em um contexto em que se fala constantemente sobre evolução, crescimento e amadurecimento, ainda existe uma tendência a reduzir alguém a um momento específico do passado. The Drama confronta diretamente essa contradição, mostrando o quanto isso pode ser injusto e, mais do que isso, destrutivo.

O filme consegue, a partir desse recorte íntimo, provocar uma reflexão mais ampla sobre como lidamos com nossas próprias relações e, principalmente, com as versões que os outros insistem em manter sobre quem fomos. Como experiência, o filme funciona em várias camadas. O roteiro é coeso, as escolhas narrativas se conectam bem e a progressão emocional é consistente. 

É um filme que convida ao diálogo. Assistir acompanhado potencializa ainda mais a experiência, porque as situações levantadas abrem espaço para diferentes interpretações e debates. Ao mesmo tempo, é uma obra que atinge diretamente o emocional. O desfecho carrega uma carga sensível muito forte, conduzindo a narrativa para um encerramento que fala sobre recomeço, sobre escolhas e sobre a possibilidade de reconstruir.

No fim, O Drama se estabelece como um resgate potente do romance no cinema. Em um momento em que o gênero parece menos presente nos cinemas, o filme reafirma sua relevância ao tratar o amor não como idealização, mas como construção, conflito e decisão. Para mim, é facilmente um dos melhores filmes do ano, especialmente dentro do romance.