Crítica| O Som da Morte

No enredo de O Som da Morte, um grupo de estudantes se depara com um artefato misterioso ligado à morte de um colega ocorrida seis meses antes. A partir desse objeto, ativado por um apito, forças sobrenaturais passam a se manifestar e revelam o destino trágico de quem entra em contato com ele, antecipando as circunstâncias de suas mortes. O filme constrói sobre a ideia de inevitabilidade. Todos morrerão, mas ninguém sabe quando.

A figura de Keba é central nessa dinâmica. É ele quem invoca os mortos e estabelece a conexão entre passado e presente, transformando o artefato em um catalisador de acontecimentos macabros. A descoberta pelos estudantes desencadeia uma narrativa que mistura curiosidade, medo e fatalismo. Há um conceito interessante na proposta, a morte anunciada como sentença, ainda que sua execução nem sempre seja clara ou consistente ao longo da história.

As atuações remetem diretamente ao elenco de filmes de terror de baixo orçamento dos anos 2000. A paleta cinzenta e escura, usada de forma intencional, reforça uma atmosfera nostálgica, como se o filme dialogasse com produções da virada do milênio. O visual sugere baixa qualidade, mas é perceptível que essa construção é proposital, buscando um ar retrô.

Se a estética funciona, o mesmo não se pode dizer dos efeitos especiais. Eles são frágeis e, em alguns momentos, comprometem a imersão. Os sustos dependem muito do som, com ruídos altos antecipando cada aparição, o que faz o impacto vir mais do áudio do que da construção visual do medo. Isso enfraquece o suspense e torna o recurso previsível e gratuito.

A proposta temática, baseada na certeza da morte e na incerteza do momento em que ela chega, é potente. O artefato antecipa não apenas o fim, mas também a causa da morte de cada personagem. Ainda assim, há incoerências. Algumas mortes parecem associadas a comportamentos de juventude que não necessariamente se sustentariam no futuro, como se o destino ignorasse o envelhecimento e a mudança das pessoas. A exceção mais convincente é a do garoto japonês, cujo desfecho ligado a uma siderúrgica próxima de casa encontra maior lógica narrativa.

Entre os acertos pontuais, a cena do labirinto se destaca pelo potencial de tensão e perseguição, elementos clássicos do terror, embora acabe subaproveitada. O relacionamento entre o casal lésbico traz representatividade importante, mas carece de desenvolvimento. A conexão surge quase exclusivamente em meio ao caos, sem momentos prévios que fortaleçam a empatia do público. Já a trilha sonora funciona muito bem e evoca o clima dos filmes adolescentes de terror dos anos 2000, contribuindo para a identidade do longa.

No fim, O Som da Morte é um filme de ideias interessantes e atmosfera nostálgica, mas irregular na execução. Entre escolhas estéticas conscientes, efeitos frágeis e uma narrativa que oscila entre o instigante e o confuso, a produção se sustenta mais pelo conceito do que pela realização. Ainda assim, deixa brechas para continuidade, inclusive com uma cena pós-créditos, e aponta para um universo que pode render algo mais consistente em uma possível sequência.