
“O Sorveteiro é 10 de 10. Quem não riu, gritou ou se divertiu aqui só não topou a proposta”.
Conhecido por fazer do excesso uma de suas principais ferramentas, Eli Roth construiu uma carreira profundamente ligada ao terror. De Cabana do Inferno (Cabin Fever, 2002) a O Albergue (Hostel, 2005), passando por Feriado Sangrento (Thanksgiving, 2023), o cineasta encontrou no gore, na violência gráfica e no humor sombrio uma assinatura própria. Em O Sorveteiro (Ice Cream Man), Roth leva novamente essas características para as telas, mas encontra uma maneira particularmente divertida de subverter elementos que remetem diretamente à infância.
A história se passa em Bayleen Bay, uma pequena cidade onde crianças brincam e adultos seguem suas rotinas até a chegada de um misterioso sorveteiro, cujo produto carrega uma maldição capaz de transformá-las em assassinos. Johnny (Shiloh O’Reilly), Heather (Kiori Mirza Waldman) e Patrick (Charlie Zeltzer), que escaparam da maldição, precisam descobrir a origem daquele homem e impedir que a violência se espalhe. Em uma das primeiras sequências, depois de uma partida na quadra, as crianças correm para experimentar os sabores oferecidos pelo vendedor. Entre elas, está uma que não pode consumir sorvete por causa de intolerância à lactose. O detalhe, aparentemente banal, funciona como uma maneira simples e eficiente de estabelecer quem estará fora daquela primeira onda de violência.

A construção inicial funciona porque permite que o filme estabeleça suas próprias regras antes de quebrá-las. Conhecemos a cidade, entendemos sua dinâmica e reconhecemos a relação das crianças com os adultos. Só depois disso Roth começa a desmontar aquele cenário aparentemente perfeito. E quando as crianças são tomadas pela maldição, o que antes parecia um espaço de brincadeiras se transforma em um verdadeiro playground de horror.
Roth também aparece diante das câmeras como Marty, em uma participação que funciona mais como uma brincadeira do próprio diretor com o universo que criou. Ao seu lado, Ari Millen assume o papel do misterioso sorveteiro, enquanto o elenco reúne ainda nomes como Sarah Abbott, Benjamin Byron Davis, Karen Cliche e Dylan Hawco.

Mas é quando as crianças começam a agir como pequenas máquinas de matar que O Sorveteiro realmente encontra sua identidade. Elas ficam apáticas, quase como zumbis, e passam a seguir uma espécie de comando que vem daquele vendedor aparentemente inofensivo. O resultado é um caos completo, no qual os adultos da cidade, incluindo pais e professores, se tornam os principais alvos.
E aqui está uma das escolhas mais divertidas do filme: as mortes parecem nascer do próprio universo infantil. Roth entende que não precisa transformar as crianças em versões miniaturizadas de assassinos tradicionais. Ele usa aquilo que pertence ao imaginário delas para construir a violência. Brincadeiras, objetos cotidianos e elementos associados à infância ganham uma função completamente diferente. É justamente nessa contradição entre inocência e brutalidade que está boa parte da graça do filme.

A violência, portanto, não está ali apenas para chocar. Ela faz parte da “brincadeira” proposta pelo diretor. O Sorveteiro é um slasher que sabe que o público veio para ver mortes criativas, sangue e exagero, e entrega exatamente isso. O filme não tenta esconder sua natureza. Pelo contrário, abraça o gore e transforma o absurdo em uma espécie de linguagem própria.
É impossível não pensar em algumas referências recentes do terror, principalmente quando se fala de figuras como Art, de Terrifier. Mas existe uma diferença importante. Se Art é uma presença física que ocupa a tela como uma ameaça concreta e imediatamente reconhecível, O Sorveteiro trabalha com uma força sobrenatural que parece estar por trás daquele personagem. O horror não está apenas no homem que dirige o caminhão, mas naquilo que o sorvete representa e na influência que ele exerce sobre as crianças.

É aí que o filme flerta com o sobrenatural sem abandonar sua estrutura de slasher. E essa combinação funciona justamente porque Roth não transforma a história em algo excessivamente complexo.Há começo, meio e fim, uma ameaça, personagens tentando sobreviver e uma cidade que vai sendo tomada pelo caos. O filme sabe exatamente qual história quer contar e não parece interessado em pedir desculpas por isso.
Visualmente, talvez a escolha mais interessante seja justamente aquilo que normalmente não esperamos de um slasher. O Sorveteiro é um filme extremamente colorido e majoritariamente diurno. Não existe a dependência daquela fotografia escura, das casas abandonadas ou das ruas sem iluminação para produzir medo. Roth faz o contrário. Coloca o horror sob o sol, cercado por cores vibrantes, granulados, sorvetes e uma estética que remete diretamente à infância.

E quanto mais colorido é aquele mundo, mais perturbadora se torna a violência que acontece dentro dele.
A própria aparência das crianças ajuda a estabelecer esse contraste. Quando a boca delas aparece suja de sorvete e sangue, o que deveria ser uma imagem associada à infância passa a funcionar como um sinal de perigo. É um detalhe simples, mas que sintetiza muito bem a proposta do longa: pegar aquilo que deveria provocar conforto e transformar em uma imagem de ameaça.
Quem entrar na sessão esperando a mesma experiência de um terror sobrenatural mais tradicional, como Sobrenatural, pode sair frustrado. São propostas completamente diferentes. Um busca construir tensão, atmosfera e medo; o outro quer colocar o espectador dentro de uma carnificina colorida, absurda e criativa. Não existe necessariamente uma proposta melhor. Existe a proposta que conversa com cada público.

E O Sorveteiro sabe exatamente com quem está falando.
Existe ainda um plot twist que reorganiza algumas das peças apresentadas ao longo da história e ajuda a conduzir o filme para seu desfecho. Sem entregar o jogo, é uma escolha que funciona porque mantém a lógica estabelecida pelo roteiro e reforça a sensação de que Roth teve liberdade para fazer o filme que queria fazer.
Talvez essa seja, no fim, a melhor maneira de definir O Sorveteiro: um filme livre.

Livre para ser exagerado. Livre para ser colorido. Livre para ser sangrento. Livre para brincar com a infância e transformá-la em uma máquina de destruição. Livre para fazer humor no meio da carnificina e, principalmente, livre para não tentar parecer outra coisa.
Não é um filme feito para todos os públicos. E tudo bem. O Sorveteiro não parece interessado em agradar quem procura outro tipo de terror. Ele quer conversar com quem entende o prazer de um bom slasher, com quem acompanha a carreira de Eli Roth e com quem consegue olhar para uma premissa absurda como essa e simplesmente embarcar na proposta.










