Crítica: Pacificador (2ª Temporada)

Na primeira temporada aprendemos que Chris Smith (John Cena) era um bom homem, um homem traumatizado pela criação de seu pai e pelo ambiente que viveu fazendo com que afastasse todos ao seu redor, mas ele encontra uma nova família com seus novos amigos. Era um ano sobre o passado e os traumas de Chris.

Nessa nova temporada escrita por James Gunn e que assina a direção ao lado de outros nomes como Greg Mottola (Superbad), Pedro Sollett (Nick & Norah – Uma Noite de Amor e Música) e Alethea Jones (Uma Noite De Loucuras) vemos uma temporada sobre o futuro explorando muito mais sobre os medos do Pacificador, a sua frustração em não conseguir conquistas na vida e ser incapaz de achar sua felicidade.

Na trama, as ansiedades da vida adulta afetam Chris Smith ao mesmo tempo que ele encontra uma oportunidade através da Câmara de Desdobramento Quântico e agora tem acesso a um mundo paralelo onde pode criar novas memórias com sua família alternativa com seu pai (Robert Patrick) e seu irmão (David Denman).

Paralelamente, o grupo de amigos formado por Adebayo (Danielle Brooks), Economos (Steve Agee), Adrian (Freddie Stroma) e Harcourt (Jennifer Holland) vive um período frágil de suas relações e consigo mesmos com as consequências do ano anterior da série.

Ao mesmo tempo temos Rick Flag Sr. (Frank Grillo), agindo como um grande antagonista contra Chris, ele o vigia para evitar problemas com a Câmara de Desdobramento Quântico, mas suas verdadeiras intenções são de vingança contra ele pela morte de seu filho, Rick Flag.

É uma temporada onde apesar desse conflito com Rick Flag Sr. se trata muito mais sobre os personagens e suas relações, há uma enorme dedicação de John Cena em trazer a fisicalidade da ação ou as piadas. Mas ele brilha de fato nos dramas internos como um adulto que perdeu demais e possui grande indignação com o universo.

Jennifer Holland também se torna um grande destaque ao demonstrar muito mais de suas dores e dilemas devid ao final da primeira temporada por causa da exposição de Adebayo sobre Amanda Waller. Agora vemos Harcourt sofrer por isso ao não conseguir outro trabalho, além de vermos sua relação com Chris ser mais aprofundada dessa vez.

Economos trabalha na A.R.G.U.S. e precisa vigiar o próprio amigo Chris, Adebayo vive um momento delicado no seu relacionamento com sua ex-esposa e não consegue se destacar em seu projeto de uma agência independente de espionagem. É uma temporada sobre a vida real ao redor deles atingir em cheio o grupo de amigos em seus momentos de maior fragilidade.

Assim sendo, se tratam de episódios que desenvolvem o drama e tiram proveito de elementos fantásticos da DC para impulsionar a história sendo contada, Chris foge para outro mundo em um grande paralelo de uma pessoa buscando formas de fuga que vão além de drogas e bebidas.

Não é sobre fanservice ou participações especiais, as conexões de universo quando surgem são coerentes com a narrativa que se forma ao redor das ações de Rick Flag Sr. e Chris Smith e sobre como esses dois homens perdidos em suas emoções acabam por afetar todos em seu caminho.

James Gunn desenvolve uma temporada que caminha entre uma tragédia constante e o desconforto da depressão daqueles que vivem com os pés no chão cheios de problemas. É sobre o quão difícil é seguir em frente quando nada parece estar dando certo na vida e isso faz com que cenas de diálogos sejam bem fortes nesse segundo ano.

O tema de uma realidade paralela se encaixa nisso tudo sendo bem contido ao causar mudanças de rumo na história e sendo uma reflexão sobre o personagem de Chris, não há um perigo mundial de destruição, mas riscos pessoais.

Esse foco nos dramas humanos faz com que a série fuja de certos caminhos formulaicos de super-heróis, mas ainda assim oferece um ano cheio de ação e humor muito bem equilibrados. Seja nas lutas, no uso de cenários e também no destaque de personagens coadjuvantes como Steve Agee como Economos e Tim Meadows como Langston Fleury ou da icônica Águiazinha.

O que impressiona é que a temporada mesmo com vários segmentos de fantasia e ficção científica concluiu sendo muito mais sobre conexões e esperança de um futuro com uma dose de críticas contra políticas americanas, o seu último episódio opera muito mais como um drama bem escrito e conduzido sobre os personagens e seus arcos.

Talvez o maior problema da temporada seja que precise embarcar junto das novas propostas de narrativa da série que agora se foca ainda mais em ser uma série do que em usar certos mecanismos de histórias de super-heróis da última década e sendo algo novo pode causar um estranhamento.

Um segundo ponto negativo talvez seja que os minutos finais da série podem ser bem divisivos, pois criam um gancho gigantesco bem ao estilo das séries de TV dos anos 2000 e que precisará que aguardemos até a sequência de Superman para vermos a conclusão. Apesar disso, essas cenas finais da temporadas são coerentes com os personagens e até mesmo com o tom da produção onde parece que nunca vemos Chris ter um dia de paz.

A segunda temporada de Pacificador impulsiona ainda mais o DCU e deixa portas abertas com novos conceitos para Man of Tomorrow e futuras temporadas da série. Mas jamais deixa de ser sobre contar um arco sobre o Pacificador e seus amigos sendo balançados pela vida ao confrontar um sistema enquanto lidam com as consequências do passado e pensam sobre como seguir para o futuro.

Mas infelizmente a vida de Chris é um ciclo de horrores e ele parece nunca estar totalmente pronto para ter paz em sua vida, então devemos ainda ver ele enfrentar muitas dificuldades até ele conseguir sua felicidade.

Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta e autor na Cine Mundo, um cinéfilo fã de Spielberg e Guillermo del Toro, viciado em séries, leitor de quadrinhos/mangás e entusiasta de animações.