Crítica | Resident Evil (2026)

“Resident Evil cria um pesadelo vivo frenético que resgata o terror dos anos 80 enquanto captura a experiência dos jogos elevado pela atuação de um carismático Austin Abrams.”

Resident Evil retorna aos cinemas em uma nova versão, dessa vez muito mais engraçada e sinistra reunindo um diretor promissor dos últimos anos, Zach Cregger que possui uma ideia particular de como contar sua história dentro do mundo da franquia ao criar uma obra de horror que mistura gêneros enquanto abraça a linguagem, ritmo e atmosfera dos jogos.

Zach Cregger ganhou respeito de críticos e do público com seus últimos filmes, Noites Brutais (2022) e A Hora do Mal (2025) que trazem o estilo particular desse diretor sendo marcado pela imprevisibilidade, a ironia tragicômica de seus personagens, um gosto pelo macabro em efeitos práticos e uma narrativa visual e sonora bem forte.

Mas o diretor também chama muita atenção por seus roteiros, há uma estrutura que se diferencia do que é feito normalmente em Hollywood com a maneira como suas histórias subvertem regras do cinema mainstream com suas reviravoltas ou na mudança brusca de tom que vai da sutileza ao absurdo. E muito disso é inserido em Resident Evil dando uma nova vida para a franquia no cinema.

Na Trama, Bryan (Austin Abrams) é um entregador que precisa levar um pacote para o Hospital Geral de Raccoon City quando um surto de criaturas surreais o obriga a lutar pela sobrevivência. Essa premissa é simples, mas extremamente efetiva pois temos um motivo para o personagem partir do ponto A ao ponto B, além de alguns elementos que dão substância como a ansiedade desse protagonista com a possibilidade de ter filhos.

Em pouco tempo logo vemos a abordagem sendo colocada na tela, Resident Evil usa de metalinguagem e de o horror escrachado dos anos 80 para explorar os pesadelos biológicos da cidade e o descaso com a vida humana.

Resident Evil não adapta nenhum jogo específico, essa é uma adaptação da franquia e seu mundo assim como é sobre a experiência dos jogos enquanto também é uma história original. Talvez possa desagradar quem espera ver a narrativa dos jogos emulada na tela, mas a produção faz algo bem melhor.

Esse é um filme que inova com uma síntese de jogos e filmes dentro de uma única experiência, repleto de influências de clássicos do horror e que ainda é inegavelmente um filme de um autor com estilo próprio.

Mas também é bem nítido como se inspira muito em vários jogos com a insanidade e o olhar mundano do Resident Evil 7, o cenário atmosférico do Resident Evil 2 e 3, além do ritmo e o humor do Resident Evil 4.

A história se desenrola em um frenesi similar ao de Mad Max: Estrada da Fúria (2015), mas que mistura a loucura de Evil Dead II (1987) com o humor e trilha sonora no espírito de filmes de John Carpenter.

Como dito antes, a estrutura dos filmes de Cregger trabalha de modos bem específicios e dessa vez ele traz uma arquietura bem inspirada em jogos. Jogos se baseiam em progressão, a medida que o personagem progride ele encontra novos cenários onde há quebra-cabeças, novos itens e inimigos.

E os jogos de Resident Evil como são do gênero de Survival Horror ainda lidam com outros elementos como gerenciamento de recursos, Bryan tem poucas balas em suas armas, além de uma criatura que persegue o jogador em momentos pontuais.

A produção brinca com isso criando um design de produção bem refinado e até mesmo emulando as câmeras dos jogos tanto a em primeira pessoa com um foco subjetivo como também com ângulos encima dos ombros.

De certo modo, o filme emula a experiência, alegrias e frustrações de um jogador nesse lugar dentros das possiblidades do cinema como se Bryan fosse uma figura baseada em jogadores tomando decisões impulsivas e lidando com as consequências.

O texto de Cregger e Shay Hatten brinca com tudo isso trazendo tanto uma sátira como também um desespero genuíno com o desconhecido da cidade. É como se o filme ficasse o tempo todo se deslocando entre jogos e filmes.

O personagem aos poucos aprende a lidar com um cenário e então é colocado em um novo cenário e surgem novas possibilidades de sobrevivência, mas também há situações que distorce esses caminhos para te lembrar que isso não é um jogo.

É inegável que nada disso poderia funcionar sem a presença de Austin Abrams, o longa se resume a acompanhar esse improvável herói lidando com inevitáveis surpresas que podem ser cômicas ou sinistras.

E Abrams traz não só um carisma natural para o papel, mas também uma fisicalidade bem forte no humor físico e uma expressividade bem ampla passando pela comédia e tragédia que nos diverte mas também nos faz temer pelo seu destino nessa cidade.

Há outras atuações sendo mais pontuais na história mas que ajudam a expor o tema do descaso de corporações com seres humanos e estabelecer as regras para Bryan como de Paul Walter Hauser, Zach Cherry e Kali Reis.

A direção de fotografia por Dariusz Wolski também se torna um destaque em criar um pesadelo vivo, ele traz muitas de suas características de ter uma imagem bem nítida mesmo em ambientes noturnos que já tínhamos visto nos filmes de Piratas do Caribe.

Tudo evoca uma atmosfera que usa de naturalismo na luz com poucos recursos digitais e se diferencia de outros blockbusters, há uma textura forte que traz esse aspecto de degradação além de sombras que sintetizam bem um clima macabro de um horror clássico dos anos 80.

Resident Evil é o que podemos chamar de um espetáculo de “terrir”, o macabro é assustador e o humor desarma o público, tudo isso enquanto sempre é ágil e cheio de surpresas no decorrer da narrativa.

O filme trabalha nesse mistura de tons gerando uma experiência intensa, engraçada e melancólica que ao longo de 1h37 não descansa e te deixa preso naquele mundo junto de Bryan sentindo cada tensão ou alívio.

A conclusão traz o clássico aspecto sombrio e súbito dos fechamentos de Cregger enquanto ajuda a expor bem seus temas sobre pessoas sendo pegas de surpresa pelas articulações irresponsáveis de corporações pretensiosas e irresponsáveis.

Resident Evil se consolida assim como um dos grandes sucessos do ano em uma mistura de gêneros envolvente e divertida que apresenta as formas interessantes de se adaptar jogos em filmes, além de elevar Austin Abrams ao patamar de uma estrela do horror.

E agora o caminho está livre para produções seguintes se divertirem com as possibilidades diversas seja criando outras histórias com outros autores criativos nesse mundo ou de seguirem adiante abraçando mais os jogos.

Resident Evil está em exibição nos cinemas.

Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta e autor na Cine Mundo, um cinéfilo fã de Spielberg e Guillermo del Toro, viciado em séries, leitor de quadrinhos/mangás e entusiasta de animações.