Crítica: Os Estranhos 2

Os Estranhos sempre foi uma franquia especial para mim. O primeiro filme, de 2008, e a nova versão que iniciou em 2024 com Os Estranhos: Capítulo 1 carregam um peso enorme dentro do terror moderno. Há algo na simplicidade da trama, o medo cru da invasão de casa e da vulnerabilidade humana, que me marcou e me fez perceber como o terror pode ser eficiente sem depender de monstros sobrenaturais, mas sim da maldade real e palpável.

O que mais me prendeu no clássico filme foi a atmosfera sufocante. Bryan Bertino conseguiu criar um clima de suspense constante, em que o silêncio se tornava mais aterrorizante do que qualquer grito. As atuações de Liv Tyler e Scott Speedman deram humanidade àquela experiência de horror, fazendo com que eu me importasse com cada detalhe. Essa mistura de realismo, suspense psicológico e violência inesperada me deixou fascinada e é por isso que considero “Os Estranhos” um terror indispensável.

Na trilogia de Renny Harlin, especificamente em Os Estranhos 2, acompanhamos Maya (Madelaine Petsch), única sobrevivente dos ataques do capítulo anterior. O filme mostra como os assassinos mascarados retornam para terminar o que começaram, eliminando qualquer um que atravesse o caminho deles. A premissa dá continuidade direta ao horror estabelecido, mas amplia a escala da perseguição, trazendo novos cenários e desafios para a protagonista.

A força do longa está no trabalho de Madelaine Petsch. A atriz sustenta grande parte da narrativa e consegue transmitir dor, medo e resistência de forma convincente. O espectador se conecta à sua luta e acompanha cada tentativa de fuga, mesmo quando a trama a coloca repetidamente no mesmo ciclo. Não há grandes inovações no gênero slasher, mas o filme atualiza sua linguagem ao investir mais na atmosfera constante de perseguição do que na violência explícita.

Essa atmosfera dialoga com referências claras. O clima de cidade opressiva remete a O Massacre da Serra Elétrica (2006) e também a Rota Mortal (2006), um filme pouco conhecido em que um casal não consegue escapar de uma comunidade que parece conspirar contra eles. Em Os Estranhos 2, a lógica é semelhante: não importa a direção que a protagonista siga, ela acaba sempre retornando ao mesmo ponto. Logo no início, as cenas no hospital chamam atenção, pois acompanhamos a protagonista percorrendo corredores vazios, o que causa estranhamento e levanta uma sensação de inquietação. Depois a floresta se torna palco da perseguição e é nesse trecho que surge a cena do javali, uma escolha que não se integra de forma clara ao restante do enredo, mas reforça o tom de estranhamento. No terceiro ato, o retorno ao local inicial fecha o ciclo de desespero e completa a atmosfera de tensão que permeia todo o filme.

O que me chama atenção é como a nova trilogia busca reinterpretar a essência do original de 2008 e, de alguma forma, se conecta com a atmosfera dos filmes de terror de 2006. Enquanto Bertino criou um pesadelo minimalista que mostrava o medo da aleatoriedade do mal, agora a franquia ganha uma roupagem mais moderna e serializada. A construção de Maya funciona como símbolo de sobrevivência, e os assassinos continuam representando a face a a suspeita de que existe algo oculto na cidade, talvez até uma conivência dos moradores com a violência que a cerca.

Diferente do filme original de 2008, aqui há uma tentativa de desenvolver motivações dos assassinos. Esse é um recurso delicado: outras franquias, como Halloween, já testaram esse caminho com resultados questionáveis. O medo do inexplicável costuma ser mais eficaz, mas, por se tratar de um grupo, talvez haja espaço para diferenciações entre cada personagem. Ainda assim, é uma abordagem que pode dividir opiniões.

Os Estranhos 2 é exatamente o tipo de terror que eu visitaria muitas vezes. Para mim, funciona melhor do que o primeiro capítulo dessa nova trilogia. É um terror que aposta na repetição como recurso e, ao fazer isso, prende o público ao mesmo dilema da protagonista, que está sempre próximo da saída, mas nunca totalmente livre. É justamente essa sensação que me faz considerar o filme uma das experiências de gênero instigantes e um título que certamente verei novamente nos cinemas.